Quem é Richard Stallman: o programador que quis libertar o software
Quem é Richard Stallman, criador do projeto GNU, das quatro liberdades e da GPL. Conheça o pai do software livre, sua filosofia e suas polêmicas.
Richard Matthew Stallman, conhecido pelas iniciais RMS, é o programador norte-americano que fundou o movimento do software livre e transformou uma ideia técnica em uma questão moral. Nascido em 1953, formado em física por Harvard em 1974, ele passou a maior parte da carreira convencendo o mundo de uma tese incômoda: com software, ou os usuários controlam o programa, ou o programa controla os usuários. Não existe meio-termo. Foi ele quem iniciou o projeto GNU, fundou a Free Software Foundation, escreveu a licença GPL e cunhou o conceito das quatro liberdades. É, ao mesmo tempo, um dos personagens mais influentes e mais controversos da história da computação.
Enquanto contemporâneos como Bill Gates e Steve Jobs construíam fortunas de onze dígitos sobre software proprietário, Stallman escolheu o caminho oposto. Ele poderia ter dominado o mercado; preferiu tentar libertá-lo. Essa decisão explica quase tudo sobre ele, do patrimônio modesto ao temperamento intransigente.
Das origens: o hacker do laboratório de IA do MIT
Stallman trabalhou no laboratório de inteligência artificial do MIT de 1971 a 1984. Ali ele desenvolveu software de sistema, incluindo o primeiro editor de texto verdadeiramente extensível, o Emacs, e uma técnica de IA conhecida como retrocesso direcionado por dependência. Mas o mais importante daquele período não foi o código: foi a cultura.
No laboratório, os hackers — no sentido original da palavra, gente apaixonada por programação que empurra os limites da máquina — eram ao mesmo tempo autores do software e responsáveis pelo computador. Compartilhavam tudo, resistiam a senhas e a medidas de segurança, e qualquer um podia ver o terminal de qualquer outro. Era uma comunidade de colaboração radical. Stallman morou literalmente dentro do próprio escritório no laboratório de IA, dormindo em um colchão que escondia durante o dia, um hábito que manteve até 1998.
Há um episódio que virou lenda fundadora, relatado na biografia autorizada de Stallman. Ele havia modificado o software de uma impressora do laboratório para avisar os usuários quando o papel emperrasse, economizando dez ou quinze minutos por semana de idas e vindas. Depois tentou fazer o mesmo com uma impressora doada pela Xerox e esbarrou em um muro: o software era de código fechado e não podia ser modificado. Aquele pequeno bloqueio, multiplicado por toda uma indústria que passava a trancar seu código a chave nos anos 1970 e 1980, foi um dos gatilhos para tudo o que veio depois.
O projeto GNU: "GNU não é UNIX"
Em 27 de setembro de 1983, Stallman postou uma mensagem no grupo da Usenet net.unix.wizards. O assunto prometia uma nova implementação de Unix, mas o texto era, nas palavras dos próprios veteranos da época, uma mistura de idealismo e arrogância. Ele anunciava que a partir daquele feriado de Ação de Graças escreveria um sistema operacional completo, compatível com Unix e totalmente livre, chamado GNU.
O nome é uma piada de programador com fundo sério: GNU é um acrônimo recursivo para "GNU's Not Unix", ou seja, "GNU não é Unix". O desenvolvimento começou de fato em janeiro de 1984. A escolha de imitar o Unix foi estratégica: era um sistema já consolidado e portátil, então copiar sua forma de uso permitia reaproveitar conhecimento e ferramentas. A diferença estava na essência. O Unix, desenvolvido na AT&T, era software inteiramente proprietário; a AT&T chegou a se recusar a distribuí-lo até para pesquisadores, vendendo licenças caras do código-fonte. O GNU, ao contrário, respeitaria totalmente a liberdade do usuário.
Reconstruir um sistema operacional do zero é um trabalho gigantesco, porque o Unix já tinha centenas de componentes. Ao longo dos anos, o projeto produziu peças essenciais, entre elas o compilador GCC, que se tornou uma das ferramentas de programação mais usadas do planeta, e o próprio Emacs. Por volta de 1992, o sistema GNU estava quase completo. Faltava uma peça central.
A Free Software Foundation
Em 1985, Stallman abandonou o emprego no MIT para se dedicar ao GNU e fundou a Free Software Foundation (FSF), a organização que serviria de base institucional e financeira para o movimento. Foi também em 1985 que ele escreveu o Manifesto GNU, um texto pensado para "vender" o projeto a possíveis colaboradores, e redigiu a primeira versão da licença que mudaria a forma como o mundo distribui software.
Financiar tudo isso, no começo, foi uma engenhoria criativa. Muito antes de existir financiamento coletivo, Stallman vendia o Emacs em fitas magnéticas pelo correio, por cerca de 150 dólares cada. O truque era elegante: ele não cobrava pela propriedade do código, que era livre, mas pelo serviço de distribuição física, já que na metade dos anos 1980 quase ninguém tinha como baixar o programa pela rede. Essa receita sustentou a FSF e pagou a ele um salário modesto nos anos difíceis.
As quatro liberdades
O coração da filosofia de Stallman é uma definição precisa do que torna um programa livre. Ele insiste que "livre" aqui não tem nada a ver com preço — em inglês, joga com a ambiguidade de free e às vezes usa a palavra libre, do francês e do espanhol, para deixar claro que se fala de liberdade, não de gratuidade. Um programa só é livre se garante ao usuário as quatro liberdades fundamentais:
- Liberdade 0: executar o programa como quiser, para qualquer finalidade.
- Liberdade 1: estudar o código-fonte do programa e modificá-lo para que faça o que você quer. Isso exige acesso ao código-fonte, a forma legível do programa, sem a qual estudar ou alterar é uma provação.
- Liberdade 2: fazer cópias exatas e distribuí-las, de graça ou vendendo, quando quiser.
- Liberdade 3: distribuir cópias das suas versões modificadas, de graça ou vendendo, quando quiser.
As liberdades 0 e 1 garantem o controle individual sobre o programa. As liberdades 2 e 3 garantem o controle coletivo: mesmo quem não programa se beneficia, porque pode se juntar a um grupo em que alguém programa e adapta o software para todos. Falte uma única dessas liberdades, argumenta Stallman, e o desenvolvedor passa a ter poder sobre o usuário. Software proprietário, nessa leitura, é um instrumento de poder injusto — e, segundo ele, esse poder costuma ser usado contra o usuário, com portas dos fundos, vigilância e DRM. Ele gosta de listar exemplos concretos, da Amazon apagando remotamente cópias de 1984 em leitores digitais às atualizações forçadas de fabricantes.
Copyleft e a licença GPL
Aqui entra uma das ideias mais engenhosas de Stallman. Ele concluiu que o direito autoral não é intrinsecamente antiético; o problema é como costuma ser usado, para negar liberdades. Então resolveu usar a mesma ferramenta jurídica ao contrário. Nasceu assim o copyleft, materializado na GNU General Public License, a GPL, escrita em 1985 a partir do GNU Emacs.
A licença concede ao usuário o direito de copiar, distribuir e modificar o programa — mas com uma condição: as versões modificadas precisam ser distribuídas sob a mesma licença, com o código-fonte disponível. Ou seja, ninguém pode pegar código livre, fechar e transformar em proprietário. A liberdade se propaga junto com o código. Stallman teve a ideia observando o que havia acontecido com editores derivados do seu Emacs, que foram fechados por terceiros, traindo a intenção original. A princípio a GPL serviria só ao Emacs; foi um conselho de que outros hackers já queriam adaptá-la aos próprios programas que o levou a generalizar o texto para qualquer software. A GPL acabou se tornando a licença de software livre mais influente da história.
Emacs, GCC e a máquina só de software livre
Vale insistir no que Stallman construiu com as próprias mãos, porque é fácil reduzi-lo a um ideólogo. O Emacs foi o primeiro editor de texto realmente extensível, e continua vivo e usado décadas depois. O GCC, o compilador do projeto GNU, virou infraestrutura básica para inúmeras linguagens e sistemas. São ferramentas que rodam, hoje, em servidores e supercomputadores no mundo inteiro.
A coerência de Stallman com o próprio discurso beira o extremo. Ele não usa nenhum software proprietário. Em uma entrevista, exibiu um ThinkPad antigo rodando apenas software livre e explicou que evita processadores Intel e AMD recentes por conterem, na avaliação dele, mecanismos de controle remoto que o usuário não pode auditar. Para ele, a única defesa real contra quem escreve o software é que esse alguém não tenha controle total — e isso só acontece quando o software é livre e todos podem inspecionar o que ele faz.
GNU/Linux: a peça que faltava e a briga pelo nome
O sistema GNU estava quase pronto em 1992, faltando um componente crucial: o kernel, o núcleo que gerencia os recursos da máquina e serve de base para os outros programas. Foi então que Linus Torvalds, um estudante finlandês, liberou o kernel que havia escrito como hobby: o Linux. A combinação do kernel Linux com o sistema GNU quase completo resultou no primeiro sistema operacional livre completo capaz de rodar em um PC comum.
Daí vem uma das cruzadas mais conhecidas de Stallman. Ele insiste que o sistema deveria ser chamado de GNU/Linux, e não apenas Linux, porque a maior parte do que o usuário roda foi desenvolvida pelo projeto GNU ao longo de quase uma década, enquanto o Linux é "só" o kernel. Chamar tudo de Linux, para ele, é não dar crédito ao trabalho da comunidade que ele liderou. É uma reclamação que soa pedante para muita gente e legítima para outra tanta, e Stallman a repete com uma teimosia quase litúrgica. Na própria biografia, há a imagem de uma camiseta que o retrata como R2-D2 ao lado de um Torvalds em pose de Luke Skywalker, e ele admite certa inveja da fama do finlandês como rosto do movimento que ele, Stallman, ajudou a inventar.
A filosofia: liberdade acima da conveniência
O que separa Stallman de boa parte do mundo da tecnologia é a hierarquia dos valores. Para ele, liberdade vem antes de conveniência, sempre. É isso que explica a divergência histórica com o termo "código aberto" (open source), surgido em 1998. Stallman vê aquilo como uma campanha para separar o software da filosofia de liberdade: quem fala em código aberto destaca vantagens práticas, como código mais confiável, e evita o vocabulário ético do certo e do errado. Muitas empresas preferiram esse discurso justamente porque ele não incomoda. Stallman recusa-se a participar de eventos que usem o termo, para não alimentar a confusão de que seria a mesma coisa.
Essa prioridade também aparece no cotidiano dele, levada a um rigor que muita gente acharia inviável. Ele defende que preservar a liberdade às vezes exige sacrifícios — pequenos, na maioria das vezes, como abrir mão de um aplicativo que não seja livre. Recusa-se a usar dezenas de serviços por razões variadas, muitas ligadas à privacidade e à vigilância: não anda com celular próprio por causa do rastreamento constante, evita empresas que exigem identificação e trata a coleta de dados como uma ameaça à democracia, defendendo denunciantes como Edward Snowden. Sua frugalidade extrema — sem carro, com gastos pessoais próximos de zero — não é só economia. É, como ele mesmo sugere, um escudo: quem quase não precisa de dinheiro não pode ser pressionado por empregador nenhum a dizer menos do que pensa.
O lado controverso
Seria desonesto escrever sobre Stallman só como herói fundador. Ele é notório por comportamentos excêntricos e por uma honestidade brutal que frequentemente vira atrito. É descrito como socialmente inábil, com explosões de temperamento, e há na comunidade o entendimento não oficial de que ele estaria no espectro autista, o que ajudaria a explicar a dificuldade com sinais sociais. Suas exigências de palestrante e sua página pessoal de "estilo de vida", com listas minuciosas de gostos, aversões e regras, alimentam a fama de figura peculiar.
A controvérsia mais grave, porém, não é de etiqueta. Em setembro de 2019, comentários que Stallman fez em uma lista interna do MIT sobre o caso Jeffrey Epstein e o cientista Marvin Minsky provocaram uma reação em cadeia. A cobertura da imprensa afirmou que ele havia defendido Epstein; Stallman respondeu que suas declarações foram distorcidas, que chamara Epstein de estuprador em série e que lamentava ter magoado pessoas. Ainda assim, renunciou aos cargos no MIT e na FSF. O episódio reabriu discussões sobre posições antigas e extremamente problemáticas dele a respeito de idade de consentimento, que críticos consideram indefensáveis e que este texto não endossa de forma alguma.
Em março de 2021, Stallman voltou ao conselho da FSF, e a comunidade se dividiu de forma quase perfeita. Cartas abertas surgiram nos dois sentidos — algumas exigindo sua remoção de todos os cargos, inclusive do projeto GNU que ele criou, outras pedindo sua permanência —, ambas com milhares de assinaturas e ambas escritas em questão de dias, o que dá a medida de quão polarizado o tema é. Organizações de peso do software livre tomaram lados. O impasse nunca se resolveu de verdade. Em 2023, Stallman revelou estar tratando um linfoma não Hodgkin, dizendo tratar-se de uma condição controlável, e segue ativo no projeto e no ativismo.
O legado
Difícil encontrar figura tão desconfortável e tão indispensável ao mesmo tempo. Richard Stallman construiu boa parte da base sobre a qual roda a internet moderna e recusou, por princípio, a fortuna que isso poderia ter gerado. As quatro liberdades, o copyleft e a GPL deixaram de ser excentricidade de um programador teimoso para se tornarem infraestrutura jurídica e ética de um movimento global. O GNU deu ferramentas; a filosofia deu propósito; e a insistência quase inflexível de Stallman garantiu que a conversa sobre liberdade nunca fosse totalmente engolida pela conversa sobre conveniência.
É possível admirar o pioneiro e discordar do homem. Aliás, essa talvez seja a única forma honesta de olhar para ele. O que fica, para além das polêmicas, é uma pergunta que Stallman passou a vida repetindo e que não perdeu a validade: quando você usa um computador, quem está no controle — você, ou quem escreveu o programa?