Personalizar o Linux: guia visual de ricing pra deixar tudo com a sua cara
Personalizar o Linux nunca foi tão divertido. Guia visual de ricing: window managers, barras, temas, fontes, cores e dotfiles versionados no git.
Poucas coisas resumem tão bem a alma do software livre quanto a possibilidade de personalizar o Linux até ele ficar irreconhecível — e completamente com a sua cara. Em outros sistemas você aceita o visual que a fabricante mandou; no Linux, cada pixel da tela é seu para mexer. É essa liberdade que dá origem a uma das brincadeiras mais viciantes do mundo do código aberto: o chamado ricing, a arte de transformar uma área de trabalho feia e genérica numa obra visual que parece saída de um filme de ficção científica.
Neste guia visual você vai entender o que é ricing, de onde veio o termo, e vai conhecer, peça por peça, os blocos que montam uma área de trabalho personalizada: gerenciadores de janelas, barras de status, lançadores de programas, terminais, fontes, esquemas de cores, wallpapers, ícones e efeitos como transparência e blur. No fim, você vai aprender a coisa mais importante de todas — como guardar tudo isso em dotfiles versionados com git, para nunca mais perder o trabalho de uma tarde inteira ajustando cores. Pega o café, que a jornada é longa e divertida.
O que é "ricing" e de onde vem esse nome esquisito
Antes de mais nada: por que "arroz"? O termo ricing não tem nada a ver com comida. Ele foi emprestado da cultura automotiva, onde "rice" descrevia carros populares cheios de enfeites cosméticos — spoilers gigantes, luzes coloridas, adesivos — que deixavam o carro chamativo sem entregar ganho real de desempenho. Muito estilo, pouca potência.
Trazido para o mundo Linux, o sentido ficou mais gentil e perdeu a carga negativa. Fazer o ricing do seu sistema significa investir tempo (não dinheiro, felizmente) em melhorias puramente estéticas: cores, transparências, fontes bonitas, layouts caprichados. Não é sobre o computador ficar mais rápido — é sobre ele ficar lindo e agradável de usar. Você pega aquela máquina de visual sem graça e a transforma em algo cheio de personalidade, do tipo que faz o colega de trabalho passar do lado, olhar a tela e perguntar se você é hacker.
E aqui vai a melhor notícia para quem está começando: ricing é de graça. Todas as ferramentas que vamos citar são software livre. O único recurso que você vai gastar é tempo — e, sinceramente, boa parte da graça está justamente no processo de ir ajustando cada detalhe.
A comunidade: r/unixporn e a cultura de compartilhar
Ninguém faz ricing sozinho no vácuo. Existe uma comunidade enorme e ativa em torno disso, e o ponto de encontro mais famoso é o subreddit r/unixporn (o nome é provocativo, mas o conteúdo é totalmente família: só capturas de tela de áreas de trabalho caprichadas). É lá que as pessoas exibem suas criações, trocam dicas e — o mais importante para quem está aprendendo — compartilham as configurações.
Você vai reparar num pedido que se repete o tempo todo nos comentários: "dotfiles, please". Isso é gente pedindo os arquivos de configuração daquela pessoa, para poder recriar o mesmo visual na própria máquina. É uma cultura generosa de copiar, adaptar e melhorar. Ninguém precisa inventar tudo do zero: você pega o rice de alguém como ponto de partida, mexe no que não gostou e, com o tempo, chega num resultado que é genuinamente seu.
Para quem começa, essa é a estratégia mais sensata. Escolha um rice que te agrade, estude como ele foi montado e vá modificando aos poucos. Você aprende muito mais desmontando algo pronto do que encarando uma tela em branco.
Os blocos de um rice: uma visão geral
Uma área de trabalho personalizada não é uma coisa só — é a soma de várias peças independentes que você escolhe e combina. Entender cada peça é o que separa quem só copia arquivos de quem realmente sabe montar o próprio sistema. Os principais blocos são:
- o gerenciador de janelas (ou o ambiente de desktop personalizado), que organiza como as janelas aparecem na tela;
- o compositor, responsável pelos efeitos visuais como transparência, sombras e blur;
- a barra de status, aquela faixa com relógio, bateria, volume e afins;
- o lançador de aplicativos, o menuzinho que abre quando você quer rodar um programa;
- o terminal e o prompt do shell;
- as fontes, os ícones e o esquema de cores que amarram tudo esteticamente;
- o wallpaper que serve de pano de fundo.
Vamos passar por cada um deles em ordem lógica, do mais estrutural ao mais decorativo.
Gerenciador de janelas vs. ambiente de desktop
Essa é a primeira grande decisão de qualquer rice, e ela define quase tudo que vem depois. Existem dois caminhos.
O ambiente de desktop completo — como GNOME ou KDE Plasma — vem com tudo pronto de fábrica: barra, menu, gerenciador de arquivos, central de configurações, tela de bloqueio, controle de Wi-Fi e áudio. Você instala e já pode usar. A desvantagem é que ele é menos personalizável nos detalhes profundos: dá para trocar cores, adicionar um pouco de blur e algumas animações, mas você não tem controle absoluto sobre cada elemento.
O gerenciador de janelas (window manager) é o extremo oposto. Ele cuida só de uma coisa: organizar as janelas na tela. E ele não vem com nada além disso. Sem barra, sem menu, sem controle de volume gráfico, sem tela de bloqueio — você instala e monta cada peça por conta própria. É trabalhoso, mas é aí que mora a liberdade total do ricing: cada componente é escolha sua.
Tiling: janelas que se organizam sozinhas
A maioria dos window managers famosos no ricing são do tipo tiling (em mosaico): em vez de janelas flutuantes que se sobrepõem, eles dividem a tela automaticamente, encaixando as janelas lado a lado como azulejos. Isso deixa tudo organizado e é controlado principalmente pelo teclado, o que agrada bastante quem gosta de eficiência. Os nomes que você mais vai encontrar:
- i3 — o tiling clássico, provavelmente o mais conhecido de todos. Roda no X11, é leve e tem documentação farta. Ótimo primeiro window manager.
- bspwm — outro veterano do X11, que gerencia janelas em forma de árvore binária e é configurado por scripts, o que dá uma flexibilidade enorme.
- AwesomeWM — configurável na linguagem Lua, quase um framework de tão personalizável.
- Sway — pense nele como o "i3 para Wayland": praticamente a mesma configuração, mas rodando na tecnologia de exibição mais moderna.
- Hyprland — o queridinho atual da comunidade. É um compositor Wayland com animações suaves, cantos arredondados e efeitos que impressionam nas capturas de tela do r/unixporn.
Não existe "o melhor" — existe o que combina com você. Se está começando e quer estabilidade comprovada, o i3 é uma aposta segura. Se quer o visual mais moderno e não se importa em lidar com tecnologia mais nova, o Hyprland é onde a comunidade está de olho.
X11 e Wayland: os dois mundos por baixo do visual
Você vai esbarrar o tempo todo em duas palavras: X11 e Wayland. São os "servidores de exibição" — a camada que coordena o que aparece na tela, os cliques do mouse e as teclas que você aperta, fazendo a ponte entre os programas e o hardware gráfico. É bom entender a diferença porque ela decide quais ferramentas de rice funcionam com o quê.
No mundo X11, as peças são separadas e bem definidas: o servidor de exibição (o Xorg), o compositor (que faz os efeitos visuais) e o gerenciador de janelas são três programas distintos que você combina. É uma tecnologia antiga e madura — está mais em modo de manutenção do que de desenvolvimento ativo, o que significa poucas novidades, mas muita estabilidade. Se você valoriza que as coisas simplesmente nunca quebrem, X11 ainda faz muito sentido.
No Wayland, mais moderno, essas peças se fundem: o "compositor Wayland" já faz o papel de gerenciador de janelas ao mesmo tempo. Por isso o Hyprland e o Sway são chamados às vezes de compositor, às vezes de window manager — internamente, são a mesma coisa. O Wayland recebe novidades o tempo todo e os grandes projetos já estão migrando para ele. A ressalva é a compatibilidade: alguns programas ainda foram feitos só para X11. Para esses casos existe o XWayland, uma camada de tradução que roda aplicativos antigos de X11 dentro do Wayland sem que você precise se preocupar. Se quiser entender essa disputa a fundo, vale a leitura do nosso artigo sobre Wayland vs. X11.
Barras de status: Polybar, Waybar e afins
Ao escolher um window manager, você vai perceber na hora que falta aquela barrinha com relógio, bateria, volume, indicador de rede e áreas de trabalho. Como o window manager não traz nada disso, você instala uma barra à parte. As mais populares:
- Polybar — a queridinha do X11. Extremamente configurável: você define cada módulo, cor, ícone e posição. É comum ver Polybars lindas nos rices mais elaborados.
- Waybar — o equivalente para Wayland, muito usada com Sway e Hyprland. Mesmo espírito: você monta cada bloquinho de informação do jeito que quiser.
A graça das barras é o quanto elas aceitam customização. Você escolhe o que mostrar, em que canto, com quais cores e ícones. E, fiel à cultura da comunidade, é totalmente aceitável (e recomendado) pegar a configuração de barra de outra pessoa como ponto de partida e adaptar ao seu gosto.
Lançadores de aplicativos: Rofi e Wofi
Sem menu iniciante, como você abre um programa? Com um lançador. Você aperta um atalho, aparece uma caixinha, digita as primeiras letras do nome do app e dá enter. Rápido e elegante. Os dois nomes principais:
- Rofi — o lançador mais versátil do X11 (também funciona no Wayland em muitos casos). Vai muito além de abrir programas: dá para usá-lo como seletor de janelas, menu de energia, buscador de emojis e mais.
- Wofi — a alternativa pensada para Wayland, com espírito parecido.
Um lançador bem tematizado, com as mesmas cores do resto do sistema, é um daqueles detalhes que fazem o rice parecer profissional. É pequeno, mas aparece bastante — vale caprichar.
Terminais e prompts: Kitty, Alacritty, Starship e zsh
O terminal é o coração de quem usa Linux a sério, então ele merece atenção especial no rice. E aqui vale um alerta honesto para não perder tempo: na prática, a diferença entre os emuladores de terminal modernos é pequena para o uso do dia a dia. Todos deixam você trocar a paleta de cores e aplicar transparência, que é o que mais importa esteticamente.
Ainda assim, os favoritos da comunidade têm suas graças:
- Kitty — acelerado por GPU, com suporte a abas, painéis divididos e até exibição de imagens dentro do terminal.
- Alacritty — famoso por ser extremamente rápido e minimalista, configurado por um único arquivo de texto.
A diferença mais perceptível entre um e outro costuma ser sutil, como a forma de renderizar a fonte — às vezes um deixa o texto visivelmente mais bonito na sua tela. Experimente e fique com o que te agradar.
O prompt: onde o terminal ganha personalidade
Dentro do terminal roda o shell, o programa que interpreta seus comandos. O padrão em muitas distros é o zsh, e é nele que mora boa parte da diversão. Com o zsh você personaliza o prompt — aquela linha antes do cursor — para mostrar o diretório atual, o branch do git, o horário, ícones e o que mais quiser.
A forma mais fácil de deixar o prompt lindo sem esforço é usar o Starship, um prompt pronto, rápido e cheio de recursos que funciona com qualquer shell. Você instala, adiciona uma linha no arquivo de configuração e já ganha um prompt informativo e bonito. Se estiver começando na vida de terminal, vale conferir também nosso guia de comandos de terminal no Linux para se sentir em casa antes de partir para a estética.
Fontes: Nerd Fonts, ligaduras e ícones
As fontes parecem detalhe, mas fazem uma diferença enorme — especialmente por causa dos ícones. Barras de status, prompts e lançadores gostam de exibir pequenos símbolos: o logo da distro, ícone de bateria, de Wi-Fi, de pasta. Esses símbolos vêm de fontes especiais.
É aí que entram as Nerd Fonts: uma coleção de fontes de programação populares (como Fira Code, JetBrains Mono, Hack) que foram "turbinadas" com milhares de ícones extras embutidos. Instalar uma Nerd Font costuma ser o primeiro passo prático de qualquer rice, porque sem ela sua barra ou seu prompt vão mostrar quadradinhos vazios no lugar dos ícones.
Muitas fontes de programação também trazem ligaduras: combinações como => ou != que a fonte desenha como um único símbolo elegante em vez de caracteres soltos. É uma questão de gosto — tem quem ame, tem quem prefira desligar — mas é o tipo de refinamento que dá um ar polido ao terminal e ao editor de código.
Esquemas de cores: Catppuccin, Gruvbox, Nord e Dracula
Se existe uma decisão que amarra o visual inteiro, é o esquema de cores. A mágica de um rice bem feito é que tudo usa a mesma paleta: o terminal, a barra, o lançador, o editor, o prompt. Essa coerência é o que separa uma bagunça colorida de uma área de trabalho harmoniosa.
Alguns esquemas viraram praticamente padrões da comunidade, com versões prontas para quase todos os programas:
- Catppuccin — paleta suave em tons pastéis, com variações claras e escuras. Virou febre nos últimos anos pela versatilidade.
- Gruvbox — cores quentes e terrosas, com um charme retrô que agrada muita gente.
- Nord — tons frios de azul e cinza, visual limpo e sóbrio, inspirado no ártico.
- Dracula — fundo escuro com acentos vibrantes de roxo, rosa e verde; um dos mais reconhecíveis.
A dica de ouro: escolha um esquema e aplique em todos os componentes. Muitos desses projetos já oferecem arquivos prontos para Kitty, Waybar, Rofi, GTK e por aí vai. Vale lembrar também que temas de cores podem ser aplicados aos toolkits GTK e Qt — os conjuntos de ferramentas que desenham os botões e as janelas dos aplicativos. Manter os dois na mesma linha visual evita aquele desconforto de ter um programa destoando do resto.
Ícones e temas GTK/Qt
Falando em GTK e Qt: eles não são só código invisível. É por meio deles que você troca a aparência dos aplicativos gráficos comuns — o gerenciador de arquivos, o navegador de configurações, os menus. Um tema GTK muda as cores e o formato dos botões, barras de rolagem e janelas dos programas escritos em GTK; o mesmo vale para os temas Qt nos programas construídos com Qt.
Por cima disso vêm os temas de ícones, que substituem os iconezinhos de pastas, aplicativos e tipos de arquivo por um conjunto coerente e bonito. Trocar o tema de ícones é uma das personalizações que dão mais resultado visual com menos esforço, e funciona tanto num ambiente completo quanto num window manager.
Se você estiver personalizando um ambiente de desktop em vez de montar tudo do zero, é aqui que boa parte da diversão acontece. Tanto o GNOME quanto o KDE Plasma aceitam temas, ícones e ajustes de cor — o KDE, em especial, é famoso por deixar você mexer em praticamente tudo pela própria central de configurações. Para decidir por onde começar, dá uma olhada na nossa comparação entre GNOME e KDE Plasma.
Compositor: transparência, blur e sombras com o Picom
Aqueles efeitos que fazem o rice parecer coisa de cinema — janelas semitransparentes, o fundo desfocado atrás de um terminal, sombras suaves nas bordas, cantos arredondados — são trabalho do compositor. No mundo Wayland, isso já vem embutido no compositor (o Hyprland, por exemplo, é famoso justamente pelos efeitos).
No X11, você precisa de um compositor separado, e o nome que reina é o Picom. Com ele você habilita transparência real (aquele terminal em que dá para ver o wallpaper por trás), desfoque do fundo, sombras e fade nas janelas ao abrir e fechar. É o Picom que transforma um i3 funcional, porém sem graça, num i3 de tirar o fôlego.
Um conselho: vá com calma na transparência. É tentador deixar tudo translúcido, mas o excesso atrapalha a leitura. Os melhores rices usam esses efeitos com moderação — o suficiente para impressionar, sem sacrificar a usabilidade.
Wallpaper: o pano de fundo que amarra tudo
Pode parecer o detalhe mais óbvio, mas o wallpaper é decisivo. Ele costuma ser a base da qual sai toda a paleta: muita gente escolhe primeiro uma imagem de fundo bonita e depois ajusta as cores de barra, terminal e lançador para combinar com ela. Um papel de parede que converse com o esquema de cores faz o rice inteiro parecer planejado.
Prefira imagens em boa resolução e que não sejam poluídas demais — fundos muito carregados brigam com os ícones da área de trabalho e com o texto das barras. Wallpapers em estilo minimalista, abstratos ou paisagens com poucas cores dominantes costumam render os melhores resultados.
Fetch tools: a foto do sistema com neofetch e fastfetch
Nenhuma captura de tela de rice está completa sem aquele quadrinho de informações do sistema, com o logo da distro em ASCII e a lista de dados ao lado: kernel, tempo ligado, window manager, terminal, tema, e por aí vai. Essa é a assinatura visual do pessoal do ricing.
Quem gera isso são as fetch tools. O neofetch foi o pioneiro e popularizou o formato. Hoje o fastfetch é a alternativa moderna, bem mais rápida e ainda em desenvolvimento ativo. Você roda o comando, ele desenha o logo colorido e despeja as informações do sistema — perfeito para exibir orgulhosamente o seu setup no r/unixporn. É puramente cosmético, e é exatamente por isso que combina tanto com o espírito do ricing.
Dotfiles: por que você precisa versionar tudo com git
Chegamos à parte mais importante deste guia, e a que mais gente ignora até se arrepender. Toda essa personalização que você acabou de conhecer mora em dotfiles: os arquivos de configuração escondidos na sua pasta pessoal, cujos nomes começam com um ponto (por isso ficam ocultos no gerenciador de arquivos). Coisas como .zshrc, .gitconfig e as pastas de configuração do Hyprland, do Kitty, da Waybar. No terminal, você os revela com ls -a.
São esses arquivos de texto que guardam toda a sua configuração: cada cor, cada atalho, cada ajuste que você suou para acertar. E aqui vem o ponto crucial: se o seu sistema quebrar, se você trocar de computador ou se quiser recriar o setup em outra máquina, são os dotfiles que salvam a sua pele. Sem eles, é começar tudo do zero.
Guardando os dotfiles no git
A prática consagrada é manter seus dotfiles num repositório git. As vantagens são enormes:
- Backup à prova de desastre — se o computador pegar fogo, seus dotfiles estão a salvo num repositório remoto (no GitHub, por exemplo). Você clona e recupera semanas de ajustes em minutos.
- Histórico de mudanças — o git guarda cada alteração. Mexeu numa cor, não gostou? Volta para a versão anterior sem dor.
- Replicação fácil — configurou tudo lindo no notebook e quer o mesmo no desktop? Um
git clonee pronto. - Compartilhamento — é assim que a comunidade responde àquele "dotfiles, please": basta apontar para o repositório.
Se você nunca usou controle de versão, este é um ótimo primeiro projeto real com a ferramenta — nosso artigo sobre o que é o git explica os conceitos com calma. A lógica é simples: você junta os arquivos de configuração num diretório, transforma esse diretório num repositório git, faz o commit das mudanças e envia para um repositório remoto.
Um detalhe técnico: symlinks
Tem uma pegadinha. Os programas esperam encontrar seus arquivos de configuração em lugares específicos (o zsh procura o .zshrc na sua pasta pessoal, por exemplo). Se você simplesmente mover tudo para a pasta do repositório, os programas param de achar suas configurações.
A solução elegante são os links simbólicos (symlinks). Um symlink é um atalho que faz um arquivo "existir em dois lugares ao mesmo tempo": o arquivo de verdade fica no seu repositório de dotfiles, e um link no lugar original aponta para ele. Você cria um com o comando ln -s, indicando primeiro o arquivo real (no repositório) e depois onde o link deve aparecer. Assim o programa encontra a configuração no lugar de sempre, mas o arquivo verdadeiro — o que o git acompanha — está seguro no seu repositório. Quem tem muitos dotfiles costuma automatizar a criação desses links com um pequeno script de instalação, para não repetir o processo à mão em cada máquina nova.
Dicas para começar sem quebrar o sistema
Ricing é divertido, mas é fácil se empolgar e transformar o computador de trabalho num canteiro de obras que não liga mais direito. Alguns conselhos para curtir o processo sem sustos:
- Não comece pela máquina principal. Se puder, experimente numa máquina virtual, num notebook antigo ou numa segunda instalação. Assim, se algo quebrar, sua vida não trava junto.
- Faça backup antes de mexer. Antes de editar um arquivo de configuração, guarde uma cópia. Melhor ainda: já comece com os dotfiles no git desde o primeiro dia, para poder desfazer qualquer besteira.
- Mude uma coisa de cada vez. Trocou o esquema de cores, testou, funcionou? Aí sim parte para a barra. Mudar dez coisas de uma vez e ver tudo quebrar torna impossível descobrir o culpado.
- Comece pelo caminho mais fácil. Personalizar um ambiente como GNOME ou KDE, ou usar uma configuração pronta de um shell moderno, é bem menos arriscado do que montar um window manager do zero. Ganhe experiência antes de partir para o modo difícil.
- Copie de quem já fez. Não há vergonha nenhuma em começar com os dotfiles de outra pessoa. É assim que quase todo mundo aprendeu. Entenda o que cada trecho faz e vá adaptando.
- Anote o que você fez. Um arquivo de anotações (ou um bom README no seu repositório) com os passos de instalação vai salvar você quando precisar reconfigurar tudo meses depois.
Se você ainda está escolhendo em que distribuição fazer suas experiências, vale saber que a comunidade de ricing tem carinho especial pelo Arch Linux, pela base minimalista que dá liberdade total para montar o sistema peça por peça. Mas fique tranquilo: ricing funciona em qualquer distro. A lógica é a mesma em todas.
Um passo a passo lógico para o seu primeiro rice
Juntando tudo, uma ordem sensata para montar sua primeira área de trabalho personalizada seria assim:
- Decida o caminho: personalizar um ambiente de desktop (mais fácil) ou montar um window manager (mais liberdade).
- Escolha um esquema de cores — ele vai guiar todas as outras escolhas.
- Instale uma Nerd Font, para que os ícones apareçam corretamente.
- Configure o terminal e o prompt (Starship no zsh é um começo indolor).
- Se for de window manager, monte a barra de status e o lançador.
- Adicione o compositor (Picom no X11) para transparência e blur, com moderação.
- Escolha o wallpaper e ajuste os temas e ícones GTK/Qt para combinar.
- Rode um fetch tool e tire aquela captura de tela orgulhosa.
- E o passo que amarra tudo: coloque seus dotfiles no git antes que dê qualquer problema.
Não precisa fazer tudo num dia. O charme do ricing é ir refinando aos poucos, sempre com os dotfiles guardados para não perder o progresso.
Perguntas frequentes
Preciso saber programar para personalizar o Linux?
Não. Ajuda ter familiaridade com o terminal e com edição de arquivos de texto, mas ricing não é programação. Você basicamente edita arquivos de configuração e ajusta valores. Começando por configurações prontas da comunidade, dá para ir aprendendo no caminho, sem escrever uma linha de código de verdade.
Ricing deixa o computador mais rápido?
Não é esse o objetivo — a palavra veio justamente de melhorias puramente cosméticas. Dito isso, muitos gerenciadores de janelas são bem mais leves que ambientes de desktop completos, então um rice minimalista pode ser mais econômico em memória. Mas o foco é a estética, não o desempenho.
Qual window manager é melhor para iniciantes?
O i3 costuma ser a recomendação clássica: é estável, muito bem documentado e tem uma comunidade enorme. Se você prefere já entrar na tecnologia mais moderna do Wayland, o Hyprland tem o visual mais impressionante, embora exija um pouco mais de paciência com coisas mais novas.
Posso fazer ricing sem largar o GNOME ou o KDE?
Com certeza. Você não precisa migrar para um window manager para personalizar o Linux. Ambientes completos aceitam temas, ícones, esquemas de cores, fontes e até efeitos. O KDE Plasma, em especial, é reconhecido por permitir mexer em quase tudo pela própria interface, sem editar arquivo nenhum.
E se eu quebrar meu sistema mexendo em tudo?
Por isso insistimos tanto nos dotfiles versionados com git e em experimentar numa máquina secundária. Com um backup dos arquivos de configuração, reverter uma mudança ruim é questão de minutos. A regra de ouro é sempre poder voltar atrás.
Conclusão: seu computador, suas regras
Personalizar o Linux é, no fundo, a expressão mais pura da liberdade que o software livre oferece: nenhuma empresa decide como a sua tela deve se parecer — quem decide é você. O ricing pode intimidar no começo, com essa avalanche de nomes e peças, mas cada bloco é uma decisão independente e reversível. Você não precisa dominar tudo de uma vez.
Comece pequeno: escolha uma paleta de cores, instale uma fonte bacana, deixe o terminal com a sua cara. Guarde os dotfiles no git desde o primeiro commit e vá evoluindo no seu ritmo, se inspirando no que a comunidade compartilha. Em pouco tempo você vai ter uma área de trabalho que é genuinamente sua — e, quem sabe, vai ser a sua captura de tela que alguém vai olhar e pedir: "dotfiles, please". Bom rice.